***********Aviso preliminar: caro leitor, esse texto foi escrito no calor do momento (e no calor de Porto Alegre, no verão), depois de algumas taças de champanhes e uma cerveja - que não resisti e precisei abrir, ao chegar em casa. Então, é possível que eu venha me arrepender de uma ou outra palavra no texto - já que é a primeira versão dele-, e espero que isso seja levado em consideração. No mais, eu, sinceramente, acho que isso não vai acontecer, mas como sou uma pessoa aberta a novas perspectivas, lerei os possíveis (mas improváveis) comentários acerca das ideias do texto, e se os argumentos contrários a minha opinião forem bons, aceito mudar de opinião.**********
Sei que já falei de arte umas duas vezes aqui no meu blog (aqui e aqui), mas, depois da última semana, acho que não é - e talvez nunca será - suficiente. Fui, de novo, a duas aberturas de exposições (ambas no Santander Cultural). No convite, o título - pomposo - de "arte contemporânea" estampado em letras garrafais, como se isso significasse, hoje, alguma coisa. Aliás, significa? Porque, olha, sinceramente, eu não sei mais. Faz tempo que eu não vejo alguma coisa com significado, alguma coisa que nos faça pensar, que proteste, que reaja, que seja bonito. Só vejo coisa feia, sem significado algum, que não é pra nada, que não é pra ninguém, que não é coisa alguma.
"O contemporâneo nos coloca problemas que nos obrigam a pensar a estética dos objetos industrializados, a reprodutibilidade, a indefinição dos limites, a complexidade dos sistemas de produção e as idiossincrasias dos valores", diz o material da programação de sete de março a vinte e dois de abril, distribuído gratuitamente pelo Santander Cultural - e se tu for lá qualquer hora dessas, provavelmente terá um esperando por ti. Ok, se isso é o questionamento da arte contemporânea, então onde é que ela está? Porque não é nos museus - ao menos, não nos de Porto Alegre - que a gente encontra esse tipo de questionamento. Nas palavras do governador do Estado, Tarso Genro, presentes no mesmo material, "a arte contemporânea, que tem a vocação de refletir sobre o nosso tempo, contribui na qualificação das relações sociais, na elaboração da crítica e na reinvenção do próprio fazer cotidiano". O senhor me desculpe, senhor governador, mas os museus da capital não colaboram em nada com a reflexão acerca do nosso tempo, a não ser pra dizer: isso tudo tá uma merda e não tem ninguém percebendo; não colabora na qualificação das relações sociais, a não ser das relações entre os bicões presentes em todas as vernissages, se atirando e se debatendo por uma taça de Salton e um potinho de massa com queijo, ou uma cereja de algum canapé que sobrou. O fazer do cotidiano, governador, será o mesmo, porque não é isso que está em jogo, infelizmente. Aliás, poucos artistas lembram que tem esse aspecto da vida, o cotidiano. E o que sobra para a crítica? Bem, sobro eu, postando a minha humilde opinião num blog que provavelmente ninguém vai ler.
Enfim, cada dia mais fico mais triste com o que vejo por aí. Qualquer porcaria é arte, qualquer trequinho montado com Super Bonder é arte, qualquer foto é arte, qualquer coisa é arte - ainda mais, arte contemporânea. Qualquer coisa é exposta nos museus. Ainda acho - a romântica aqui falando alto - que não pode ser assim. Não pode ser qualquer coisa, porque, bem, se é qualquer coisa, então não é nada. Concordo lá com esse trecho do texto do Tarso - embora eu discorde dele em muitas outras coisas, que, agora, não vêm ao caso - mas, infelizmente, não é isso que temos aí. O que temos aí é um monte de gente que acha que sabe alguma coisa - e, me desculpem, diplomas de cursos (não importa o nível) não servem pra nada se não se souber o que fazer com eles, e não basta me dizer que é mestre ou doutor em Artes Visuais pra dizer que algo é arte, assim, sem mais nem menos: ainda é preciso, sim, justificar isso, e essas coisas que estão nos museus não se justificam. Não estou dizendo que todos são assim, mas que, principalmente, os administradores de museus de arte são. Se é preciso um texto explicando uma imagem, que deveria explicar-se por si só, deve ter alguma coisa errada. Afinal, uma imagem não diz mais que mil palavras?